quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O mundo inteiro cabe nos teus olhos...

Foto Júlia Tigeleiro


É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe, 
mesmo quando as sua voltas me levam para longe de ti;

e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas 
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.

Nuno Júdice

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

brumas...

Foto Júlia Tigeleiro





Chegaste de mansinho
Quando a bruma
Asfixiante
Inundava o fundo do vale
E trazias contigo
Sem nada prever
O aroma das madrugadas
Com o dia por resolver.
O verde das faias refulgia
Com a claridade instalada
E a cotovia
Prenúncio de sinfonia
Galgava as alturas
Em ânsia ilimitada.
Gostaste do teu papel
Forjado em conto de fadas
E a sorrir adormeceste
Mas esqueceste
A função primordial
(Deixaram de bater asas)
Então o lume
Exigente na atenção
Lentamente esmoreceu
E a bruma 
Expectante
Inundou de rompante
A razão do coração.

AC
(08 de dezembro de 2009)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

vivia com humildade...

Foto Júlia Tigeleiro



Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassois a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança
em ti.
Adam Zagajewski



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

entre névoas...

Foto Júlia Tigeleiro


De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui - aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos reconhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.


Diz: " Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."


Como se a ouvíssemos.


Nuno Júdice

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

as mãos pressentem...

Foto Júlia Tigeleiro


As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secura idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargo húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada


al berto


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

é só um olhar...

Foto Júlia Tigeleiro



Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

tempo...

Foto Júlia Tigeleiro






Nunca prestei grande atenção ao calendário, nunca comemorei datas.
Tenho para mim um relógio íntimo que marca outro compasso nisso que chamamos de tempo.


Mia Couto