sexta-feira, 21 de abril de 2017

mas tu vieste...

Foto Júlia Tigeleiro



De onde chegaram estas palavras?

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência

Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.


E não havia um nome para a tua ausência

Mas tu vieste.

Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?

Tu vieste.
E acordaste todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.


Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.


Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Joaquim Pessoa

segunda-feira, 17 de abril de 2017

caminhos de sombra...

Foto Júlia Tigeleiro


A noite em sombra e fumo se desfaz…

Florbela Espanca,

porque eu cheguei é tempo de me veres...

Foto Júlia Tigeleiro

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
de solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
e os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 3 de abril de 2017

pedaçinhos de memórias pendurados

Foto Júlia Tigeleiro


Morre-se de tanta coisa
Quanto a mim morro-me de ausência
morro-me com todo este céu a cair-me por entre os dedos;
pedacinhos de memórias pendurados
morro-me também...de melancolia
quando tu, sem eu saber porquê,
não te aproximas nem acenas
ah sim, também se morre de silêncio.


Victor Oliveira Mateus


quinta-feira, 30 de março de 2017

já sou de outras coisas...






Foto Júlia Tigeleiro





Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou  fere. Já não tenho pachorra para cinismos, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, sorrir a quem quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismos, hipocrisias, desonestidades e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismos seletivos e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismos ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de caráter rígido, inflexível e tóxico. Na amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência.


Meryl Streep

sinto-me assim...




Ultimamente sinto-me assim... 

segunda-feira, 27 de março de 2017

...tão longe...



(...)
e esta chuva
que ameça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
e de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
(...)

amália bautista



hoje, só hoje...





Foto Júlia Tigeleiro

Shiuuuu! Não faças barulho.
Hoje é dia de prender-me a silêncios, e escutar aquilo que vem de dentro de mim.
Hoje tenho as mãos ocupadas, por isso escrevo com os olhos...